A estudante de Zootecnia, Joyner Santana Alcântara, tenta há uma semana registrar denúncia de discriminação que diz ter sofrido no dia 10 de novembro. Procurou a Polícia, mas apesar de levar duas testemunhas, os agentes não aceitaram registrar a queixa da acadêmica, uma garota de origem terena , de 19 anos. “Fiquei revoltada, teve policial rindo de mim”, conta.
Ela estava com colegas da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco), na manhã da segunda-feira passada, quando o grupo foi abordado por duas pessoas que faziam panfletagem, convocando os estudantes para uma mobilização contra o Estatuto do Índio, organizada pela Recovê, organização que prega a defesa da propriedade e do Estado Democrático de Direito.
Joyner e as amigas contam que uma mulher chegou com os folhetos em mãos já dizendo frases como “que índio tem de deixar de morar no mato, porque transmite doenças”. Ao ouvir os comentários, alguns colegas teriam dito à mulher que na roda estava Joyner, uma representante terena.
Apesar do aviso, a mulher e um rapaz, que se apresentou como estudante de Direito, não desistiram da conversa. “Eles começaram a gritar comigo, na frente de todo mundo. Me agrediram aos berros, perguntando se eu achava certo índio tomar terra dos outros, zombando de mim. Fui humilhada, só sabia chorar.”
Para a acadêmica, o constrangimento não parou por aí. Orientada pelo Neppi (Núcleo de Estudo e Pesquisa das População Indígenas da UCDB) e incentivada pelos colegas, resolveu procurar a Polícia, onde não conseguiu sequer registrar boletim de ocorrência.
A jovem esperava que o caso fosse investigado para que ela tivesse a oportunidade de reconhecer as duas pessoas responsáveis pela agressão e exigir a punição delas.
Joyner relata que procurou a Unidade Mista de Segurança Pública, na avenida Mascarenhas de Moraes. Primeiro foi atendida por um agente, identificado apenas como Luigi. “Além dele recusar fazer o B.O, ainda disse que aquilo não era nada”, conta a estudante.
Em uma segunda tentativa, desta vez procurando uma agente “mais velho” diz, novamente a recusa. “Ele disse que não via mal nenhum naquilo e que a culpa era minha que devia ser mais tolerante com as pessoas ignorantes. Tudo isso rindo na minha cara. Como é que querem que as pessoas denunciem preconceito, se quando a gente vai até a Polícia, eles menosprezam o caso”, reclama a garota.
O caso foi então comunicado ao delegado, não identificado por Joyner. O policial então resolveu registrar a ocorrência, mas apenas como “perturbação”, garante a acadêmica. “Saí de lá indignada, não registrei nada porque não foi isso que aconteceu. Eu fui vítima de preconceito, só que sentiu isso na pele sabe da gravidade. Não entendo porque foi negado a mim o direito de fazer essa denúncia”, protesta a terena.
Joyner procurou então a Funai em Campo Grande e o Centro de Defesa dos Direitos Humanos, e o caso deve ser relatado ao Ministério Público Federal, pedindo esclarecimentos sobre a atitude da polícia e punição aos responsáveis pela agressão.
“Até pensei em não voltar para a faculdade, tenho vergonha, as pessoas estão me olhando de forma diferente”, conta a estudante que diz nunca ter pensado em nada além do direito de registrar um boletim de ocorrência. “Não quero dinheiro, quero que as pessoas sejam responsabilizadas por discriminação, que é crime. Foi difícil chegar até aqui e quero ser respeitada”, explica.